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Dentre os fundamentais papéis do Estado, está o proporcionar muito mais que os meios, a sensação em quem ali nasce de igualdade de condições, de pertença e cidadania, de inclusão. Essa deficiência talvez seja a principal causa do desaire social brasileiro. 
Sobre Ordoliberalismo e o conceito do Estado Social como aquele que garante benefícios a todos com a contribuição dos que produzem, ou seja, da repartição da criação da riqueza que o primitivo Liberalismo puro e duro criou. Além do direito à Saúde e Educação públicas, que chegamos mesmo a pensar que sempre existiu, há um terceiro outro direito fundamental que nos importa muito em determinada fase da vida; as pensões. Como assim uma família que cuidava dos seus doentes, incapacitados e velhinhos, passou o Estado a desempenhar esse papel. O mundo globalizado tal como é hoje, já não depende de ideologias "esdrúxulas" para o dever de proteger seu cidadão, sob pena de não o fazendo simplesmente desmoronar. O brutal nível de acumulação de riqueza alcançado só ainda não colapsou porque os Estados de alguma forma vieram garantindo algum bem-estar social em troca do pagamento de contribuições e impostos. O Estado Social é o resultado da evolução do liberalismo capitalista, tentado e f...
Intrigante no mínimo renegar a nossa "louvada civilização judaico-cristã", em nome da "greco-romana-árabe" que nasceu e floresceu no Mediterrâneo... "a civilização da luz e da liberdade, dos pátios, dos terraços e dos templos, e não das catedrais e do terror..." 
Há trinta anos atrás, quilombo ainda era coisa do tempo do Império. Hoje o chamado quilombola tem estatuto distinto, como o índio nas cidades, do cidadão comum. Claro exemplo do exclusivismo cultural brasileiro e do aproveitamento político que no lugar de integrar e igualar proporcionando ascensão social, prefere isolar e subsidiar a pobreza de comunidades carentes já totalmente miscigenadas. Manter uma cultura à custa da pobreza, além de incoerência, é crime.
Deixemos de lado um pouco a figura do Estado, dessa chamada administração formal da sociedade baseada em leis e votos. É da sociedade que afinal se trata; e da sua cultura, e de seus costumes, e de suas vontades. O que dizer quando algo a perturba, a ameace, a amedronte e principalmente possa ter o poder de descaracterizá-la, a ponto de deixar de ser a sociedade que originou o próprio Estado? É do Multicuturalismo que estamos a falar. Do projeto de coabitação de diferente costumes num ambiente de tolerância e harmonia enriquecedora para o bem-estar de todos. Será isso realmente possível? Poderão povos com diferentes costumes e tradições conviver pacificamente de baixo de um mesmo Estado, ele próprio com suas leis e costumes? A resposta está a olhos vistos. A imiscibilidade de culturas é o fator gerador de Estados independentes, às vezes conflitantes, nomeadamente quando uma sociedade ameaça a outra, seja por razões económicas, demográficas ou pelo confronto de costumes, em especial o r...
Retirei de um texto de Henrique Raposo uma explicação muito boa sobre o desaparecimento da pertença nos dias de hoje e seus terríveis efeitos: "... No passado ainda recente, os mais pobres sabiam que tinham um certo estatuto e reconhecimento através da sua condição de operário ou trabalhador especializado, tinham o seu métier, a sua fábrica, o seu sindicato, a sua comissão de trabalhadores, o clube de futebol do sindicato ou o grupo coral ligado à fábrica. Esse mundo que garantia uma estrutura mental e o tal reconhecimento social, o tal status dentro da ordem natural das coisas, desapareceu em menos de uma geração.  As pessoas saltam de trabalho em trabalho sem criarem vínculos em lado nenhum... perderam empregos, perderam a ideia do emprego para a vida, perderam a ideia de que podiam ser operários, perderam as casas, até os carros. Ter uma arma é o que lhes sobra da sensação de ownership. Têm a arma e outra arma: o Facebook ou outras redes sociais onde procuram o capital social q...
"É algo de recente e de muito surpreendente: são as mulheres que decidem tudo. Elas decidem o início de uma relação, elas decidem quando é que essa relação termina, elas decidem ter um filho ou não. O homem permanece estranhamente inerte. Há uma espécie de desfalecimento do ponto de vista masculino que não deixa de ser perturbador. O ponto de vista masculino, tendo tão poucas oportunidades de se expressar, tornou-se desconhecido. É uma espécie de segredo... que pensa de tudo isso o homem, no fundo de si mesmo? Uma hipótese é que ele não mudou, nada de nada. A reforma do homem foi um falhanço completo, mas é um falhanço dissimulado porque os homens compreenderam que o melhor era calarem-se." Concordo com M. Houellebecq sobre o papel voluntarioso da mulher na sua emancipação em relação ao homem. Acrescentaria que tudo não passa da mais perfeita expressão da natureza dos gêneros...
Um trecho de uma cronista de quem sou habitual leitor despertou-me para as minhas gentes: "Estes dias pardos fazem recordar os dias cinzentos da agonia de Salazar e do caetanismo. A vida seguia igual e não parecia haver esperança de furar a monotonia da incompetência. Apetecia o exílio. Quase 50 anos depois da revolução de abril, nunca imaginei que tal sabor amargo viesse à boca, o de não ver futuro para Portugal, de não descobrir chefes respeitáveis que não façam da mentira a verdade da propaganda..." Em tudo há semelhança nas duas culturas, uma herdeira da outra, uma um fado da outra... E aí de repente surge à minha frente novamente a causa disso tudo. Que tantas e tantas vezes discorro em tentativas para explicar, certamente para aplacar minha inconformidade, o motivo de tamanho deblaque. Nós como eles também não somos representados, nem queremos que representem a nossa própria responsabilidade de sermos governados! Simplesmente não queremos. Preferimos assim, que alguém n...
A condição feminina determinada pela sua fisiologia e principalmente pela vulnerabilidade da maternidade determinou sua posição social secundária e passiva em relação ao homem, mais forte fisicamente, e que sendo ativo a engravida. Todo progresso social equitativo de direitos entre os gêneros não conseguiu modificar essa relação de subalternidade aceite e preservada pelas sociedades. O comportamento da mulher que é educada para omitir seu impulso sexual, ao mesmo tempo que é estimulada para ser sexualmente atrativa, representa bem essa relação que não se modificará enquanto a manifestação natural do impulso sexual não for aceite, assim como a atratividade não for prioritária. A humanidade ainda não conheceu qualquer sociedade em que houvesse igualdade de expressão da pulsão sexual. 
As sucessivas gerações são marcadas pelas condições sócio-econômicas de suas épocas e caracterizam de uma forma geral todos os seus indivíduos independentemente da classe social a que pertencem. Quanto mais no passado, mais longas e poucas mudanças; quanto mais no presente, mais rápidas e grandes transformações... Partindo desse ponto de vista podemos encontrar uma possível explicação para duas características marcantes da geração de nossos filhos; o fato de permanecerem mais tempo em casa dos pais e não objetivarem carreiras profissionais. Se tomarmos no Brasil os anos 60 como a geração dos pais e os anos 80 como a dos filhos, com um intervalo médio de 25 anos entre gerações, podemos bem verificar essas causas. Os avós nascidos durante a grande guerra puderam desfrutar na juventude de um período de acalmia e progresso. Vivia-se com poucos recursos mas com estabilidade. O ainda pequeno consumo por falta de oferta propiciava a poupança. Os valores tradicionais e as carreiras estáveis fo...
Se a política não é a causa do problema social mas sim consequência, podemos concluir então que a verdadeira causa está em nós. Os aspectos culturais de um povo definem sua organização social e como consequência seu modelo político, justo ou não, consoante sua própria natureza. Sendo a família a célula social, é aí que se devem concentrar todas as atenções e nesse caso, sem qualquer influência direta do Estado, cabendo unicamente aos pais a educação por valores morais de seus filhos. Dependerá dessa formação o sucesso dessa sociedade. Não cabendo em nosso povo o conceito da educação pelo Estado, será dos pais na intimidade da família essa responsabilidade. Não havendo estrutura familiar com formação moral prévia consolidada, em todos os níveis sociais, tal tarefa não poderá ser executada ou mesmo sequer reconhecida. Quer se dizer com isso que é do modelo e valores atuais das famílias que resulta o mau funcionamento da sociedade e que depende somente dessas famílias sua mudança. Começar...
A liberdade é função da maturidade do indivíduo. Como entre uma criança e um adulto, um tem mais que o outro porque amadureceu e faz uso da liberdade sem causar dano a si próprio ou a outrem, ou seja, o grau de liberdade pode ser prejudicial se não corresponder à maturidade. Uma sociedade assume o comportamento dos indivíduos que a compõem. Se os indivíduos estão mais avançados e maduros para viver coletivamente, desfrutam de mais liberdade. Ao contrário, outras sociedades não, e apesar de se constituírem na forma de direito mais igualitário possível, não chegam a ser de fato verdadeiras democracias. Existem pelo mundo afora grupos sociais organizados com mais ou menos liberdade, vivendo da forma mais harmoniosa possível apesar de não preferencialmente a ideal. Sendo a liberdade característica sem a qual não existe a natureza humana, seu grau não diferencia o indivíduo a não ser por essa própria capacidade de compreensão, sendo mesmo aceita em algumas sociedades, certa redução de ...
A invenção do trabalhador contratado com direitos legais foi a mais perfeita forma do capital aprisionar sua galinha dos ovos de ouro. Ornamentando suas pomposas paredes, o quadro do empregado que acorda, toma o transporte para o trabalho, cumpre sua jornada, retorna à casa para dormir e na manhã seguinte recomeça o ciclo, emoldurado com o dourado de suadas leis trabalhistas, fala por si só do que representa a outra pessoa, no caso o trabalho, em relação a si próprio, o capital. Duas pessoas. Uma que possui o capital e o coloca para render e a outra que trabalha para isso. Nada de mal nessa relação aparentemente injusta, porque dá a impressão de que uma trabalha para outra que não faz nada. De fato quem possui o capital não fica sentado esperando que o dinheiro lhe entre pelos bolsos, pelo contrário, também trabalha muito para pôr tudo a funcionar, e vai depender exclusivamente dele, que essa máquina continue a funcionar gerando riqueza para si, ao mesmo tempo que retribui o t...
A causa indiscutível dos problemas socias está na desigualdade das condições económicas. Os experimentos de modelos económicos já demonstraram o acerto da economia de mercado. O liberalismo económico na Europa, onde se encontram as sociedades mais desenvolvidas, evoluiu para o Estado Social; Educação e Saúde de qualidade, gratuitos para todos, custeados pelos impostos sobre o rendimento privado. Esta fórmula, assegurada pelo exercício de governos democráticos e instituições atuantes, desequilibra-se sem a efetiva participação de todos. O entendimento desta equação, compreendida pelo usufruto desses benefícios e confirmada pelo voto, só é possível com a educação e a inclusão de todos na repartição da riqueza gerada. Bastaria a exclusão de uma parte que não fosse aquinhoada, para que se criassem desigualdades e, em consequência, problemas sociais. O interessante trabalho “O Espírito da Igualdade “ de Wilkinson e Pickett demonstra cabalmente a relação entre desigualdades e proble...
Onde está a causa desse desastre? Na maior parte das vezes culpam-se os políticos, mas a resposta correta vem naturalmente logo a seguir: a educação. Pode-se dizer que a política é consequência da educação, tanto como o contrário. Entretanto se imaginarmos que medidas políticas permitiriam melhores níveis de educação, estaríamos esquecendo o verdadeiro elemento educador do indivíduo: a família; e nesse sentido podemos concluir que a boa educação familiar acaba por se refletir numa boa política. Em outras palavras, uma sociedade educada possui políticas corretas. Sem que haja pessoas educadas não é possível estabelecer políticas justas. Somos nós os culpados? Sim! É inegável essa afirmação, e não admiti-la só perpetuaria o problema social do qual emerge a má política e todas suas consequências. Deve ser através da família que se deve educar seus membros, e em extensão toda a comunidade, para que se enraízem os valores morais mais sólidos e caros nos quais se baseiam as sociedades...
Faz parte da nossa natureza moral, do nosso primitivismo humano, amealhar coisas para depois trocar por outras que desejamos. Mais que precisamos, queremos ter coisas. É o nosso velho materialismo a funcionar. Inventamos o dinheiro para facilitar isso e ainda bem! Se assim não fosse, não poderíamos trocar nossa mão-de-obra por moeda, e com ela, além do pão nosso de cada dia, sermos livres para poder comprar as coisas que desejamos. É por causa dessa nossa necessidade que a tal “mão invisível” continua nos movendo e girando o mundo... Graças a isso vamos conseguindo estabelecer regras para viver em conjunto, escrevendo leis e recorrendo à sua força para manter tudo nos eixos… Sem o dinheiro e a troca do trabalho pelo salário não existiria o modelo de sociedade que conhecemos. Mal não faria para o nosso desenvolvimento se não fosse outra característica humana; a avareza, e com ela, o acúmulo da riqueza. Desde que inventamos a moeda de troca, vimos acumulando dinheiro e o concentra...
O que tem o furacão Katrina com a crise brasileira? Parto de uma conclusão. O Estado enverniza o homem, e a falta dele, através da falta da Justiça e de sua força policial, faz quebrar esse verniz. Quanto mais o cidadão sente-se desrespeitado e ameaçado, mais descumpre as normas desses Estado e, em caso extremo, o próprio comportamento civilizado. Vimos em Nova Orleans, após a devastação causada pelo Katrina, o que pode fazer a falta do Estado. Vimos que a demora na ajuda e mesmo um certo descaso, num país que não se pode considerar incapacitado, causou saques armados, mortes e até mesmo violações nas ruas da cidade. Um lapso do Estado. Como explicar esse comportamento se não admitirmos que no fundo somos ainda primitivos e o que nos regula e contém nada mais é que a força da lei? São as normas sociais, a organização do Estado e suas instituições, tudo debaixo do olho da Justiça, que nos pincela com um pouco de verniz e nos faz parecer um pouco mais civilizados… Na verdade uma a...
Parto de duas citações. “Crianças sem disciplina e jovens sem orientação sadia constituem o gérmen dos imensos desastres humanos”. (Humberto de Campos) “No adulto está escondida uma criança, uma criança eterna em contínua formação, nunca perfeita, necessitada de vigilância e educação”. (C.G. Jung) A educação é a base de tudo e a falta dela a origem de todos os problemas. Toda criança precisa ser educada; cabe aos pais em primeiro lugar essa tarefa e isso só se dá quando os próprios são educados, caso contrário dificilmente seus filhos serão. Os adultos, na sua grande maioria precisam também ser reeducados tanto quanto os pequenos e, neste caso, pior essa tarefa, porque já estando formados com seus princípios e costumes, dificilmente aceitariam adquirir outra orientação de outros “adultos”. Cabe então aqui assinalar o único tipo de educação que resulta tanto numa criança como num adulto. A educação moral. O que é certo é indiscutível e está em todas as consciências. A qualida...
É constrangedor constatar o comportamento infantil e displicente do brasileiro em relação à grave situação política em que vive. Para o olhar do estrangeiro é incompreensível e deprimente. Para um português que connosco se assemelha, motivo de chacota. Apesar de viver em muitíssima menor escala o drama dos escândalos políticos, não brinca com isso ou faz do sério problema, motivo de piada, quando muito escrachada nos carros alegóricos do seu comportado carnaval. Nada se compara à banalização do crime político, do mesmo modo com que se banaliza a violência, companheira arrasadora de todo brasileiro. Uma escritora portuguesa poetizou o modo de viver do brasileiro dizendo que este engana a vida com a alegria, por achar que a tristeza não faz parte da natureza. Eu endosso esse olhar estrangeiro sobre nós, mas complemento dizendo também que preferimos o engano a lidar com o problema. Está em nós essa fuga do sério trabalhoso e chato, para a brincadeira que é mais fácil e do gosto de to...
Do ponto de vista de quem vive o momento, talvez não seja clara a mudança que se processa nas relações de trabalho e nas condições em que se assentam a estabilidade dos sistemas económicos e o funcionamento das sociedades. Num futuro não muito distante ficará patente este período de transição pelo qual passamos. A questão fundamental que origina esta mudança é o natural descontentamento e insatisfação do homem que descobre-se preso à dependência, contrariando o que lhe é mais caro, a sua liberdade, da condição de trabalhador remunerado para apenas sobreviver. Um escravo. A título de ilustração, refere-se aqui o conceito do RBI Rendimento Básico Incondicional, discutido atualmente em alguns países, como uma proposta para desvincular a necessidade de sobrevivência, da prática do trabalho. Ideia essa que, se acertada, libertaria o indivíduo da necessidade de rendimento para sobreviver, dirigindo sua capacidades e aptidões para o trabalho criativo, produtivo ou não. Inquestionavel...