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O que tem o furacão Katrina com a crise brasileira?
Parto de uma conclusão. O Estado enverniza o homem, e a falta dele, através da falta da Justiça e de sua força policial, faz quebrar esse verniz. Quanto mais o cidadão sente-se desrespeitado e ameaçado, mais descumpre as normas desses Estado e, em caso extremo, o próprio comportamento civilizado.
Vimos em Nova Orleans, após a devastação causada pelo Katrina, o que pode fazer a falta do Estado. Vimos que a demora na ajuda e mesmo um certo descaso, num país que não se pode considerar incapacitado, causou saques armados, mortes e até mesmo violações nas ruas da cidade. Um lapso do Estado. Como explicar esse comportamento se não admitirmos que no fundo somos ainda primitivos e o que nos regula e contém nada mais é que a força da lei? São as normas sociais, a organização do Estado e suas instituições, tudo debaixo do olho da Justiça, que nos pincela com um pouco de verniz e nos faz parecer um pouco mais civilizados… Na verdade uma aparência disso.
O que se passa no Brasil é o mesmo; não foi causado por um fenómeno da natureza, mas não deixam de ser catastróficas as consequências da ausência do Estado na vida dos seus cidadãos. No seu caso particular, a existência de um Estado omisso, longe de proteger e defender o cidadão e sim direcionado exclusivamente para os interesses de seus governantes corruptos.
Vamos encontrar na história das diferentes sociedades pelo mundo, uma maior ou menor presença do Estado, e não se trata aqui da sua atuação na Economia, mas na defesa do cidadão e no respeito pelas leis que visam a igualdade e harmonia entre todos. Quanto mais o Estado se afasta dessas funções, maior o afastamento dos seus cidadãos, vivendo em Democracia ou não.
É notório observar como exemplo, aqueles países que formaram-se tendo como base uma classe dominante abastada, exploradora de outra classe escrava, campesina, ou operária; oprimida e desrespeitada nos seus direitos igualitários. A não ser por uma verdadeira revolução social ou a imposição de leis fortes que limitam o poder dos governantes, não seriam hoje algumas sociedades mais desenvolvidas. O Brasil de formação patriarcal, latifundiária e escravocrata não difere muito de Portugal, seu colonizador, que por sua vez desenvolveu-se nos mesmos moldes, ou seja, uma oligarquia de nobres privilegiados sustentada por uma maioria campesina desrespeitada e afastada do poder. Apesar das enormes diferenças, seria ingénuo pensar que o português participa e exige mais da governação que o brasileiro. De facto o que se observa é o mesmo desdém e desconfiança de um Estado que não os liga para nada a não ser cobrar impostos.
É a participação efetiva, com fiscalização e protesto, que implica numa maior presença do Estado para que este exerça o seu papel principal; defender e proteger seus cidadãos, e é a Justiça que deve estar encarregada disso. Em Portugal recentemente houve muita discussão sobre a responsabilidade do Estado no desastre causado pelos incêndios do último Verão; já se fala em indeminizações. No Brasil o que ainda faltará para que sejam coibidos e punidos os desmandos de sua Justiça corrompida? Não há forma do cidadão confiar num Estado como tal. Não há forma de se respeitar as leis. Não há forma de se tentar participar e querer reformar o que está errado.
Não são os países ou sociedades mais ou menos desenvolvidos que os outros. Somos no fundo os mesmos homens naturais de Rousseau, prontos para manifestar nosso primitivismo, a não ser que as leis e a força nos obriguem o contrário e não estalemos o verniz…


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