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11 Terminado o almoço na companhia da TV, lavou o prato e os talheres. Sua cozinha era espartana. Todo comer que preparava durava duas ou três refeições. Comia pouco e rápido, moderava muito nos alimentos de que antes abusara. Às vezes não dispensava um copito de vinho e embora desaconselhado a comer pão, dele não se afastava. Gostava de frutas. Não perdia as promoções de época. Antes quando era jovem não dava importância, mas com a idade passou a apreciar lentamente o sabor de cada fruta durante às sobremesas. À noite não dispensava seu prato de sopa e o pão. Suas análises lhe diziam que não era com alimentação que devia preocupar-se. Mantinha tudo em ordem com seus medicamentos habituais já há muitos anos. Não podia queixar-se da saúde a não ser pelos joelhos que lhe tiravam o humor. Tinha reservado aquela tarde para arrumar alguns papéis que há muito adiava. Foi buscar no armário do corredor a bandeja onde acumulava seu correio. Já não recebia cartas e ali só havia contas e...
O momento atual amedronta e com razão. Ninguém está preparado para enfrentar uma situação como essa e é de se prever procurar culpas... As sociedades como os indivíduos culpam sempre algo sem antes julgar a si próprios, um comportamento psicológico bem conhecido e recorrente. Nosso país tem muitos problemas que bem devem ser criticados mas mesmos outros mais avançados também estão à mercê da sorte. Está na pessoa, no Holismo, mais que qualquer tipo de organização social, toda a diferença. Sejamos menos orgulhosos e egoístas. 
A independência dos três poderes é o garante da Democracia. Sempre achamos que é e tem sido assim no Brasil. Não é. Desde sempre, ao que se dá o nome "negociação" tem sido a maneira dos poderes ficarem "arrumados" e a população... Quando esse governo disruptivo tenta peitar essa tal "negociação" surge o conflito e isso é uma total "descaratice" do Congresso e do Judiciário. Um Executivo independente e com a legitimidade dos votos para o comando tem suas prerrogativas para governar, e deve ser assim no regime presidencialista que adotamos. Cabe ao Congresso melhorar essas iniciativas no interesse da população e ao Judiciário a conformidade na Constituição. Essa desejada relação harmônica e proveitosa não existe porque o Congresso chantageia aprovações em troca de benefícios pessoais e o Executivo não encontra forma de diálogo que o endosse. Ambos erram. "Na briga do mar com o rochedo quem apanha é o marisco!" 
O Home Office, as vídeo conferências e o ensino à distância deixaram de ser coisas engraçadas para serem usuais e necessárias. É uma verdadeira quebra de paradigma que veio pra ficar, trazendo grandes mudanças no transporte, alimentação, vestuário e principalmente no convívio com a família. O que interessa mesmo não é como mas sim quanto se "entrega". 
Enquanto aguardo na porta do supermercado com entradas restritas pus-me a pensar. "Guardar no Verão para consumir no Inverno..." Estamos a começar um "Inverno" no mundo e será preciso repartir o que se juntou durante o bom tempo... Além da pandemia, a Economia mundial também faz seus mortos e esses são um perigo de morte para os que vão escapar. Sem produção pode ainda haver algum dinheiro guardado mas para comprar o que? E não se trata apenas de víveres porque sem se produzir um automóvel não haverá dinheiro para comprar comida ou minério de ferro... Não será o fim... tudo retomará seu curso lenta e progressivamente. Será um recomeço como muitos houve, com muitas dificuldades e privações. Reconstruir tudo o que vírus devastou... vamos ter aprendido muito... será mesmo? 
A ideologia da roubalheira na política deturpou o conceito do Estado. Tudo o que se refere ao Governo passou a ser sinônimo de coisa a evitar. No aturdimento provocado pelo descalabro da coisa pública o cidadão perplexo se refugia no individualismo e na ortodoxia das soluções, como se uma houvesse... Para nós que ainda engatinhamos na livre iniciativa concorrencial, o "Neo" parece que chegou primeiro que o velho Liberalismo conhecido de outras paragens, e que por ser velho, já aprendeu com seus erros... A ojeriza do Estado é uma estupidez, tal como a idolatria do privado. Não se pode viver em grupo sem quem cole todas as peças do puzzle; esse é o Estado, e faz muita falta exatamente nas horas mais difíceis em que um sozinho descobre que não pode viver sem os outros.