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Já não havia muitos na cidade. Fazia questão de engraxar semanalmente seus sapatos com o Vasquez, um galego, de há muito tempo. Conhecia-o desde os tempos do Cine Metrópole, quando ainda tinha uma pequena cadeira de madeira mal acabada, que ele mesmo fizera. Aos fins-de-semana aproveitava as longas filas na calçada, disputando os fregueses da vendedora ambulante de rebuçados… Hoje no lugar do cinema estava o centro comercial onde o Vasquez, agora com alvará, tinha duas cadeiras altas estofadas em couro vermelho, onde recebia seus fregueses de costume.

Já estava reformado há muitos anos. Seu negócio rendia pouco mas era seu meio de estar ativo. Seu sócio havia morrido já há muito tempo e a segunda cadeira raramente estava ocupada…

- Bom dia Vasquez! – Cumprimentou-o o velho com um aperto de mão.

O engraxate tirou sua boina, curvando-se solícito como sempre, a mostrar seu enorme incisivo de ouro.

- Bom dia señor! – Respondeu com aquele resquício de sotaque e invariável respeito por quem fosse.

- Como vai isso Vasquez? – Falou o velho com alguma intimidade, quebrando o formalismo do galego que sempre fora muito calado. Uma vez contou que seu pai tinha sido perseguido e veio a morrer nas mãos da polícia em Espanha, por causa das suas convicções políticas… O Vasquez aprendera a falar pouco e estar atento a tudo.

- Bien, graças a Dios. Por favor… - Disse indicando a cadeira e oferecendo o jornal do dia. Talvez fosse estratégia sua, oferecer de imediato a leitura do jornal para que o cliente não fizesse muitas perguntas…

- Obrigado Vasquez, não quero o jornal… hoje tens aqui muito trabalho porque tem chovido muito. - disse sorrindo como sempre, apontando a sujidade dos sapatos.

Ao tempo que o engraxate punha as proteções das meias, subiu para a outra cadeira um outro cliente. Aparentava uns 30 anos, denotando não ser do local pelo seu sotaque típico nortenho.

O engraxate pediu desculpas porque não havia ali ninguém para atendê-lo. O homem disse não se importar porque tinha tempo e podia esperar… Enquanto começou a cuidar dos sapatos, o nortenho meteu conversa com o velho.

- Já não se bê muitos engraxates…

O velho comentou:

- Já houve muitos, mas hoje são poucos os que procuram este serviço.

- Só há por aí sapatilhas… - Eu sempre gostei de sapatos bem cuidados! Mesmo quando não estou a trabalho, não prescindo dos sapatos. Achei graça encontrar aqui essa engraxataria… - disse o homem que aparentava em tudo muito cuidado com a aparência.

- Considero importante apresentar-se bem… – emendou o velho, notando o interlocutor vaidoso.

O Vasquez trabalhava diligente enquanto ouvia…

- Concordo consigo. Considero que as pessoas prezam mais aqueles que bestem-se bem… No meu trabalho é muito importante a apresentação. Mesmo se não fosse por isso, sinto-me bem quando estou bem apresentado. Não saio à rua em T-shirts ou sapatilhas…

- Em que trabalha? Perguntou o velho.

- Sou o novo gerente do Banco Atlas aqui ao lado. Fui transferido esta semana. O senhor tem lá conta?

- Não senhor. Sou correntista da Caixa há muitos anos…

- Nunca pensou em mudar de banco? Temos muitos produtos que lhe podem interessar.

O velho declinou do convite e o Vasquez que então puxava o brilho com a flanela perguntou um tanto acanhado:

- O senõr discúlpeme. Pero, como puedo hacer para obtener um préstamo?

O gerente sorriu perguntando: - Para que seria o empréstimo?

- Pienso comprar outra silla! Respondeu concluindo o trabalho com os sapatos do velho.

O jovem bancário teve ainda curiosidade de perguntar. O velho ouvia com atenção enquanto pagava o de costume.

- Os negócios estão aumentando?

O espanhol enquanto contava o troco a devolver ao velho respondeu com um largo sorriso:

- Quiero dejar la empresa más grande para mis hijos…

O gerente, sorrindo com um olhar de viés para o velho, respondeu-lhe:

- Passe por lá para conbersarmos!

- Muchas gracias! Disse também ao velho que se despedia dizendo:

- Isto é que é… sim senhor!

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